É noite de rock and run, baby!

May 17, 2017

 

Semana do dia das mães e o papai aparece com uma sugestão. Uma corrida noturna em SP, com show do Ira e open bar no final. “Vai lá, vai ser divertido! Eu fico com as crianças!” Nossa, a frase que toda mãe sonha ouvir! Topei. Nessas horas não dá pra recusar uma oferta dessas. Tá bom, eu preferia que a sugestão fosse um dia de shopping, spa e passeio com as amigas…rsrs… mas a curtição de estar com pessoas bacanas pós corrida valeria a pena. Os 5km seriam apenas uma boa desculpa pra me somar ao grupo da MFT e partir pra SP num animado ônibus, com direito a karaokê da madrugada.

 

O dia começou meio amargo quando o papai aparece com o kit da corrida e uma camiseta onde só cabia metade da mamãe… Tudo bem, respira! Otimismo, bota outra coisa por baixo e vamos que vamos! Às 4 da tarde saía o ônibus, família a caminho e a mamãe dá um grito: “Volta! Esqueci o número de peito!” Caras e bocas do papai, rosnando, desvio rápido pra casa, mas conseguimos chegar a tempo. Na porta do ônibus me esperava o querido professor Marinho: “Vamos, mamãe na corrida!” E lá fui eu.  Diversão, muito papo e muita risada parecem ter feito o caminho ficar muito mais curto. Chegamos durante um lindo entardecer, temperatura agradável, tudo perfeito. Paradinha pra foto, guarda-volumes e um cafezinho. 

 

Aquecimento feito e simbora pra largada. Coração parecia que ia saltar do peito. Minha última corrida havia sido há mais de 3 anos, meu último exercício bem feito eram as aulas de tênis e horas de mountain bike há 2 anos. Depois disso, filhos, casa, fogão e tanque são o circuito diário. E não me preparam para a árdua tarefa de quilômetros à minha espera. Sem musiquinha especial de incentivo, nem contagem regressiva, a largada foi meio chocha, do tipo "siga o fluxo”. Começo correndo, num ritmo tranquilo, ao lado das amigas de papo. Logo duas delas vão ganhando ritmo e se misturando ao grupo da dianteira. Uma amiga de longa data, minha ex-professora de História, segue ao meu lado. Começa a subida do Elevado Costa e Silva, o famoso “Minhocão”, tento manter o ritmo. Uma dor chata começa a me lembrar da falta de treino. Aquela dorzinha incômoda do lado direito, logo abaixo das costelas, aquela que indica que vc respira mal, corre mal… tá sem ritmo, fora de forma. Fui desacelerando, desacelerando até começar a caminhar. “Segue, Rô!” e lá se foi a última das moicanas que eu conhecia. 

 Começo a caminhar, olhando para os meus pés, meus passos ainda que apressados em nada me lembravam os que correram 10km um dia. Fui sentindo os demais atletas que passavam à direita e à esquerda. Sentia-me o próprio protagonista de uma famosa música de Chico Buarque: “atrapalhando o tráfego”. EUREKA! Começo então a me distrair com as construções da cidade que nunca dorme. Por trás das janelas de edifícios antigos, alguns já bem maltratados pelo tempo e falta de manutenção, pessoas viviam seu sábado à noite. Uma mulher lavava roupas numa pequena área de serviço, enquanto os filhos e o pai assistiam tv na sala. Ela direciona um breve olhar em direção à multidão. Nossos olhares se cruzam e trocamos um aceno…e lá se foi o primeiro quilômetro.

 

Lá embaixo, uma estação de metrô, moradores de rua comem de uma pequena marmita, uma bandinha toca trombone. Jovens garotos jogam futebol numa pracinha mais adiante. Mais edifícios, mais janelas, mais sombras cruzando entre os vidros. Mais corpos ofegantes ultrapassam o meu, distraído pela paisagem que emoldura o circuito…Km. 2.

Sigo em passo acelerado. Já não olho mais para meus pés. Meus olhos filmam ao redor e meus pensamentos traduzem as cenas. A cada janela entreaberta, meu olhar curioso se mete a observar, a criar histórias com personagens desconhecidos. Uma senhorinha sentada sozinha vendo tv, uma mulher que penteava os cabelos, um rapaz que saía do banho, devidamente atoalhado, que fique claro!…Fim do Km.3.

 

Num enorme jardim vertical, na lateral de um dos prédios, a palavra ELEVA-SE brilha em neon. Uma sublime sensação de que era pra mim! De que era uma mensagem que dizia “você não está no seu melhor momento, mas pode melhorar!" Há sempre coisas positivas que aparecem em nosso caminho quando menos esperamos. Acelerei. Mais prédios, mais janelas. Essas eram diferentes. Não conheço a região, mas as frestas exibiam monitores, poltronas, leitos. Uma pessoa vestindo branco e realizando um acesso venoso confirma que ali era um hospital. Mais histórias cruzaram minha imaginação e o sentimento de gratidão coroou o km.4.

Último quilômetro. A vontade de correr até a linha de chegada chocou-se com a sensação de hipocrisia se o fizesse. Não corri até ali e não o faria mais. Queria terminar meus 5km de meditação caminhando a passos rápidos, porém firmes e seguros. Numa das últimas janelas, de um edifício que exalava carência, um colchão no chão abrigava um homem que dormia. Senti tristeza e mais gratidão. Nestes até então quatro quilômetros eu havia pensado em tantas coisas, em tanta gente, em tantas histórias. Comigo estiveram meus filhos, meus dias áureos, minha loucura diária e o "papai na corrida”. Um edifício antigo, de número 146, ensina o quanto permitimos que o tempo nos atinja. Exibe suas belas formas, porém maltratadas. Cuidados e carinho poderiam salvá-lo de sua previsível decadência. Assim também acontece conosco. Nossa essência está lá, sob capas de descuido do tempo e das intempéries.

 

Começo a planejar como melhorar o corpo que edifica minha alma. A maldita camiseta de um número menor, o tempo todo subindo e exibindo minhas não tão desejadas curvas, me certifica dessa necessidade… E no instante que segue, graças aos pincéis de Dória que ainda não cobrira essa pérola, leio a otimista mensagem num grafite: "Fé em Deus. Dias melhores virão.”  Um sorriso naturalmente escapa e celebro esse momento, encerrando os 5km com alegria, esperança e gratidão. A noite termina com pizza entre amigos, piadas com a conta que não fechava, música  e vozes desafinadas no ônibus. Chego em casa, papai e crianças na casa da vovó. Medalha na cabeceira, desfruto da grande vitória: horas de sono sem nenhuma interferência. Yuhuuu!

 

Obrigada, papai por colocar a mamãe na corrida! Valeu cada quilômetro!

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Alguns mantras poderosos!

#1 

"What consumes your mind, controls your life"

 

#2
"O ato de correr é mais do que uma sucessão de saltos como está conceituado na literatura. Correr é um ato de coragem, persistência e superação; um metafora da vida na mais pura expressão atlética" - Alan Ricardo Costa

 

#3

"Don't be easy to define, let they wonder about you" @sucess_foundation

#4
Love your fucking life. Take pictures of everything. Tell people you love them. Talk to random strangers. Do things your're are scared to do. Fuck it, because so many of us die and no one remembers a thing we did. Take your life and make it the best history in the world. Don't waste that shit"

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© 2017 por Fábio Pestana

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