"Um grupo de bebida com um problema de corrida"

March 31, 2017

Logo quando cheguei na Indonésia, país onde morei por 4 anos, vivi uma experiência quase que surreal. Era julho quando um amigo que soube que eu corria me convidou para participar de um evento de corrida organizado por, segundo ele, um "pessoal muito doido", que acontecia toda segunda-feira as 5:15 da tarde. Eu meio ressabiado mas achando que "muito doido" na Indonésia, um país muçulmano, não devia ser nada muito diferente das coisas que havia visto na vida, de pronto aceitei.

 

Pois bem, naquela tarde de segunda-feira baixamos as telas dos laptops mais cedo que de costume e fomos ao encontro do pessoal doido. Chegando ao local marcado percebi que aquele definitivamente não era um grupo qualquer. Foi quando meu amigo começou a explicar. Aquele grupo se tratava do HASH ou HHH ou H3 o tal famoso e desconhecido por mim "Hash House Harriers"

 

Segundo o que consta o HASH foi criado em 1938 na Malásia por um grupo de britânicos. Basicamente os caras corriam e depois se reuniam para tomar cerveja. Fascinante imaginar esses caras se reunindo para uma atividade física seguida de bebida alcoólica naquela época, há tanto tempo atrás, na década de 30. E mais incrível saber que o HASH é hoje um movimento mundial, encontrado nas principais cidades do mundo. Procure no Google HASH São Paulo, Moscow, Beijing, ou qualquer outra grande cidade mundo afora, você vai se surpreender em saber das existência dessa trupe!

 

Pois bem, chegando ao local de encontro de cara me assustei com a quantidade de pessoas, em torno de 200 caras dos mais diversos lugares do planeta vestidos com camisetas coloridas, cada um com uma camiseta diferente mas todas elas do HASH, de algum evento anterior. Meu amigo me explicou que aquele era um dia especial, além de comemorar 38 anos de fundação daquele grupo em Balikpapan, cidade onde acabara de chegar, também estavam comemorando o dia da bastilha, importante data no calendário francês, já que uma boa parte dos participantes eram originários do país napoleônico.

 

O grupo era de uma organização extrema, havia um caminhão daqueles baús de pequeno porte que transportava as cervejas e servia de escritório central. Havia um cara responsável pelas fichas. Você pegava o tal papel com seu nome é mostrava pro Hash Cash (o cara responsável pelo dinheiro), pagava uma pequena taxa que dava direito a uma cerveja e o cara carimbava a data do dia no tal pedaço de papel ficando assim registrada a sua participação.

 

As 17:15 em ponto um outro cidadão, o chamdo GM ou General Manager (Gerente Geral) agora com uma buzina na mão, chamava a atenção de todos e em voz alta dava as boas vindas dizendo o número de edição daquele hash, o porque estávamos ali e indicando onde se iniciaria o caminho a seguir.

 

Basicamente toda semana um dos membros do grupo era responsável por preparar a trilha, sim trilha. O hash é realizado nos lugares mais estranho e inóspitos que se possa imaginar. A trilha é demarcada com papel picado que é jogada um pouco ali, um pouco aqui de maneira que vc tenha que procurar e quase sempre não encontrar o caminho a seguir. A distância e o trajeto do percurso? É ai que está a graça.. vc não sabe até terminar a corrida voltando ao ponto de origem, passando por caminhos diversos no meio do mato, subindo e descendo ribanceiras, passando pelos quintais de casas, até por rio no nível do peito eu já passei.

 

 

 

E naquele dia, meu primeiro hash, eu corredor que achava que aquilo era uma competição, sai em disparada para eu um determinado momento me ver sozinho no topo de um morro, no meio do mato, quando já no fim da tarde ouvia o som dos auto falantes das mesquitas que ecoavam por toda a cidade convocando os fiéis a rezar. Naquele momento me senti em paz, uma experiência incrível naquele fim de tarde, com aquele pôr do sol mágico naquele país maravilhoso que é a Indonésia.

 

Finalmente depois de 14 km e me perder algumas vezes cheguei de volta ao ponto inicial, onde todos com suas cervejas na mão formavam um círculo ao redor de uma lamparina enquanto o tal GM, o cara da buzina, entoava cantos engraçadíssimos que eram seguidos por todos corredores que se hidratavam com o tal suco de cevada.

 

Uma experiência incrível, me encantei e me fascinei por aquilo. A partir daquele dia comecei a frequentar todas as segundas-feiras. Cada semana em um lugar diferente que você ficava sabendo em cima da hora, no meio da tarde. Era sempre um surpresa. Em uma semana normal tinhamos 25 a 30 participantes. Em eventos especiais, como aquele primeiro que fui, aparecia gente de todos os lados. Alguns semanas era difícil ter que escapar mais cedo do escritório mas eu fazia o meu máximo e sempre que possível estava lá. 

 

E assim aprendi alguns dos rituais do grupo. Nos seus primeiros 10 encontros você é como um calouro universitário, vão te embebedar, você será o foco das principais piadas até que chegue sua 10 participação,  quando em um ritual quase de uma seita secreta, talvez seja uma, escolhem um novo nome pra você. 

 

A partir daquele momento todos te chamam e você será conhecido por aquele nome. Alguns impronunciáveis  para o horário nobre da TV, alguns em bahasa (língua da Indonésia), outros em inglês ou francês ou espanhol ou uma mistura de tudo isso. O meu, em off pra vocês, é "fist in my ring". Vou deixar a tradução para criatividade de cada um, não adianta eu tentar explicar que não vai colar. 

 

 

Uma das principais figuras do HASH em Balikpapan é o famoso "mother trucker" um jovem senhor que faz parte do grupo desde de sua fundação naquela cidade, incrível!! E outros mais com anos e décadas de participação. Tinha também o "broken dick" um Hungaro que havia deixado tudo pra trás e vivia há 20 anos na Indonésia. E muitos outros. Enfim, gente de todos os lados. Alguns eu encontrava no âmbito profissional, o que se tornava engraçado porque nunca sabíamos os nomes reais uns dos outros. Imagine a situação embaraçosa em uma reunião de trabalho.

 

Os costumes e eventos são sensacionais. Um dos eventos mais tradicionais é o chamado "Red Dress Run", onde todos os hashers (nome dado a quem faz o hash) se vestem com vestidos vermelhos e correm pela cidade. Diz a lenda que isso começou na california quando um Hasher convidou uma amiga dizendo que iria apresenta-la ao "Hash House Harriers". Ela acreditando ser algo formal, não imaginava que era um grupo de corrida, ou melhor bebida, apareceu vestida a rigor. Chegando lá foi motivo de piada, mas mesmo assim decidiu correr, correr de vestido. E assim começou uma tradição.

 

Também tem o "on-on", quem basicamente significa "on the trail". Imagina você no meio da mata e la longe ouve alguém gritando "on-on". Isso te auxilia a achar o caminho. Também serve no dia-a-dia do hasher, quando num treino qualquer durante um dia qualquer da semana você passar por outro corredor desconhecido e você então diz "on-on". Se o cara responder com outro on-on, o cara é do Hash. Juro que, depois que sai da Indonésia, demorei uns 6 meses até perder essa mania de dizer "on-on" toda vez que ia correr. Eu saia correr seja la onde fosse, encontrava outras pessoas na rua e lá dizia "on-on". Algumas me olhavam estranho, outras mudavam de calçada. Depois de não achar nenhum hasher em Bragança Pta, cidade em que vivo, decidi deixar o on-on para trás.

 

Vou levar essa experiência para o resto da minha vida. Entre outras, essa sem dúvida é uma das vivências que mais tenho falta quando me lembro da Indonésia. Ali tínhamos pessoas de todos os grupos sociais, maduros ou mais jovens, gordos ou magros, autos ou baixos, corredores ou não, mas pessoas que acima de tudo estavam lá para divertir-se, reunir-se e passar um bom momento com amigos.

 

Espero que tenham gostado. Um grande abraço e até a próxima!!

 

Para quem quiser saber um pouco mais sobre o Hash:

https://en.wikipedia.org/wiki/Hash_House_Harriers

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hash_House_Harriers

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Alguns mantras poderosos!

#1 

"What consumes your mind, controls your life"

 

#2
"O ato de correr é mais do que uma sucessão de saltos como está conceituado na literatura. Correr é um ato de coragem, persistência e superação; um metafora da vida na mais pura expressão atlética" - Alan Ricardo Costa

 

#3

"Don't be easy to define, let they wonder about you" @sucess_foundation

#4
Love your fucking life. Take pictures of everything. Tell people you love them. Talk to random strangers. Do things your're are scared to do. Fuck it, because so many of us die and no one remembers a thing we did. Take your life and make it the best history in the world. Don't waste that shit"

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© 2017 por Fábio Pestana

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