"Não vou mais tomar leite papai"

March 5, 2017

 

 

Artigo publicado no LinkedIn - por Fábio José Pestana

 

 

Oito meses se passaram desde aquela fatídica manhã de outono na linda cidade de Buenos Aires quando meu chefe, um francês de origem árabe, um cara alto que gostava de praticar esportes mas que a responsabilidade do cargo e a exagerada carga de trabalho lhe haviam presenteado com um par de olheiras e uma não tão atlética barriga, me chamou para uma conversa a portas fechadas. Desde do momento que ele apareceu na porta da minha sala pedindo para acompanhar-lo eu já sabia o que viria, estava estampado no seu rosto. E eu acreditava que estava preparado para aquilo.

 

Mas tudo começou bem antes, cerca de 1 ano e meio antes daquela manhã de abril, quando eu ainda ocupava outro cargo, em outro país, a Indonésia. Eu trabalhava em uma grande companhia de serviços do ramo petroleiro. Eu já havia exercido cargos em vários países ao redor do globo, desde de engenheiro de campo no deserto da Patagônia argentina a plataformas no golfo do México, até chegar como gerente de desenvolvimento de negócios naquele exótico país do sudeste asiático. 

Lembro-me muito bem daquela manhã de novembro de 2014, eu tomava um café e acompanhava o noticiário quando algum especialista anunciou que o barril do petróleo havia atingido a mínima dos últimos 3 anos. Ainda sinto como aquele gole de café desceu amargo, queimando minha garganta.

 

Eu estava na Indonésia há cerca de 3 anos e meio, quando então fui promovido para outra posição. Mais um degrau na minha carreira, mais um desafio. Estava orgulhoso de mim, feliz por estar naquele país e realizado pelo momento que vivia na empresa. Pois bem, parece que aquele notícia não era um simples alerta mas o início de uma das maiores crises no mundo do petróleo. Eu já havia passado por uma dessas crises, em 2008, mais curta, não tão voraz. Dessa vez era diferente, uma nova realidade no mundo petroleiro se aproximava, e as mega empresas sabiam bem o que fazer, estão preparadas para isso, já tem o plano de como agir nesses casos. E a partir do seguinte mês vi a gerência oferecendo planos de demissão voluntária, afastamento por 6 meses a 1 ano juntamente com uma porcentagem do salário, percebi então que não era uma simples crise passageira, mas algo grande estava acontecendo e aquela minha nova posição, recém iniciada, estava definitivamente ameaçada.

 

Nos meses que seguiram vi alguns colegas de trabalho, estrangeiros e nacionais, sendo definitivamente desligados da empresa, outros desligando-se temporariamente. Eu com o futuro incerto consegui me segurar na posição por mais alguns meses, sempre acordando pela manhã sem saber se aquele seria meu último dia de trabalho. Pois bem, então em maio de 2015 veio uma carta de transferência, dessa vez de volta para a Argentina, Buenos Aires, como gerente de vendas para a região que envolvia três países. Confesso que inicialmente bateu um frio na barriga, uma posição tão importante mas ao mesmo tempo tão desafiadora que encheu meu ego, dando a impressão que mesmo em meio a uma grande crise, pessoas sendo afastadas, demitidas, a empresa tinha encontrado uma posição tão importante para mim, acreditavam no meu potencial. Mais uma vez eu estava orgulhoso de mim mesmo, convencido de que era uma peça importante dentro da empresa, dentro daquele mundo. Afinal, quantos bons empregados, pessoas competentes já não estavam mais ali, enquanto eu estava sendo promovido!

 

Finalmente cheguei à Argentina! Nova posição, novos desafios, nova vida pela frente, minha esposa e meu pequeno filho então com 2 anos de idade, estávamos agora mais perto do Brasil, mais perto das nossas famílias. Porém, logo que cheguei não demorei a perceber que aquele era um terreno instável onde tudo poderia acontecer. A Argentina ainda era um dos poucos lugares do mundo do petróleo onde ainda havia uma boa atividade, o governo subsidiava o preço do barril, os sindicatos petroleiros eram fortes. Mas o país estava as vésperas de uma nova eleição para presidente onde o então candidato da oposição, um grande empresário, tinha todos os números a seu favor. O país até então estava sendo governado pela família Kirchner, primeiro o já falecido Néstor Kirchner e naquele momento por sua viúva Cristina Fernández de Kirchner. Mas Mauricio Macri, aquele empresário que já havia sido presidente de time de futebol, que foi prefeito de Buenos Aires, com idéias liberais, tão diferentes do governo que estava no poder a tanto tempo, estava a frente das pesquisas e, caso ganhasse, muita coisa mudaria no país.

 

Eu continuava com meu trabalho, cada dia mais atarefado, cada dia mais ocupado, mais preocupado. Eu estava trabalhando como nunca, 100% de dedicação, dormia mal, acordava cedo, chegava cedo ao escritório, saia tarde levando o laptop para casa para seguir trabalhando. Assim era minha vida, até que um dia, meados de novembro minha esposa juntamente com meu filho me surpreenderam com um presente. Quando abri, um par de sapatinhos e um exame de gravidez. Eu seria pai novamente! Pulei de alegria, já ia pelos meus 38 anos, meu filho com 2 anos e alguns meses, definitivamente era o momento correto para a família crescer.

 

Passada a euforia inicial, vieram as noites de pouco sono e preocupação. Como seria meu futuro? Como pai, com mais uma "boca"para alimentar? Meu futuro na empresa? Afinal a crise estava se agravando e nenhum especialista ou seja lá quem fosse se arriscava em dizer algo sobre o fim do tal momento ou como dizem: "downturn".  

 

Pois bem, Macri venceu a eleição, e no dia 10 de dezembro assumiu a presidência do País. Com sua posse os subsídios diminuíram e o cambio até então controlado pelo Estado agora estava livre. O dólar oficial que estava ao redor de $9 pesos agora valia $15. O reflexo no trabalho foi imediato, devido ao cambio o faturamento em dólar, moeda "oficial" dentro da empresa, despencou juntamente com a atividade petroleira. A crise havia chegado à Argentina e mais uma vez meu emprego estava ameaçado.

 

A pressão aumentou, juntamente com a queda nas vendas e queda ainda maior no faturamento. Mas já sabemos, essas mega empresas tem seus planos de emergência, sabem o que fazer nesses momento de revés. E mais uma vez vi pessoas, pais de família, gente experiente indo embora, e dessa vez não havia plano de demissão voluntaria, não havia pacote especial de afastamento temporário, afinal a crise já se arrastava por mais de 1 ano e poucos daqueles que foram temporariamente afastados ainda continuavam com algum vínculo com a empresa. 

 

Eu a cada dia dormia menos, trabalhava mais, e deixava a família em segundo plano. Sentia uma grande culpa por aquilo, mas afinal o que eu poderia fazer naquele momento de tantas incertezas? Lembro-me daquela manhã, quando saindo para trabalhar, meu filho como em muitos outros dias, me pediu para ficar em casa, ficar com ele e eu então respondi "papai tem que trabalhar para poder comprar o seu leitinho". Ele na sua inocência e ao mesmo tempo tanta sabedoria me disse: "Não vou mais tomar leite papai, fica". Aquilo me doeu, um aperto no peito e com olhos cheios de lágrimas olhei para minha esposa que com um olhar maternal, que só as mulheres, as mães tem, me confortou de maneira a não me sentir tão mal.  Fui com aquela estranha dor no peito, aquele nó na garganta rumo ao escritório, afinal não era só o leite de cada dia que estava em jogo.

 

Nos dias que seguiram, mais incerteza e agonia. Estava claro para mim que não tinha para onde fugir, era uma questão de tempo até minha hora chegar. Afinal eu era estrangeiro naquele país, salário e benefícios diferenciados, um alvo certo para redução de custos. Mas de alguma forma aquelas palavras do meu filho me confortavam, me davam forças, afinal passar mais tempo com a família, nem que fosse por um curto espaço de tempo não seria tão mal, eu sempre pensei em tirar um ano sabático, mas será que eu estava preparado para aquilo? O que eu faria se perdesse o emprego? Minhas economias seriam suficientes?

 

Não demorou muito tempo até que o tal francês bateu à minha porta. No caminho para sua sala percebi todo o peso que ele carregava, senti que ele estava mais nervoso que eu. Tínhamos um relação profissional muito boa, e pessoalmente, apesar de pouco tempo trabalhando juntos, ao redor de 10 meses desde da minha chegada a Argentina, me simpatizava com ele e tenho certeza que ele comigo. Inicialmente me pediram para esgotar meus dias de férias, cerca de 15 dias, enquanto, segundo a gerência, buscariam uma nova posição para mim, não mais na Argentina, nem mesmo na região que cobríamos. 

 

Estava claro para mim que uma 'nova posição' em outra localidade, em outro país naquela altura do campeonato era algo, digamos, irreal. Afinal depois de tantos meses de mercado em baixa quem tinha que ser transferido já havia sido. Não me restavam muitas 'fichas' para apostar. Nas semanas de 'ferias' que seguiram fiz alguns contatos dentro da própria empresa, afinal eu havia trabalhado em vários países e conhecia muita gente, mas a resposta era sempre a mesma: está difícil para todos, pessoas sendo afastadas a cada dia e sem sinal de melhoras.

 

Pois bem, até que finalmente chegou o grande dia, ironicamente na semana do meu aniversário,  eu fui definitivamente desligado da empresa. Sim, daquela empresa onde havia passado meus últimos quase 12 anos. Empresa pela qual sempre sonhei em trabalhar, desde dos tempos da universidade quando via e ouvia sobre os engenheiros que lá trabalhavam, os países, os treinamento, as histórias. Sem dúvida era onde eu sonhava estar, sonhava seguir carreira.

 

Confesso que, apesar da tragédia previamente anunciada, algo que eu vinha me preparando para enfrentar, senti como um soco na cara, daqueles que você perde o norte, um soco dado por seu melhor amigo numa reação tola por uma discussão sem sentido. Senti-me traído, desprezado, injustiçado, afinal eu havia tido ótimas avaliações nos anos anteriores. Aquilo não poderia estar acontecendo comigo. Não, não comigo, eu que havia sido classificado como "high potential empoyee" (empregado com alto potencial) em uma das avaliações anteriores, sem falar que minha esposa estava grávida de 7 meses, como poderiam fazer aquilo comigo? Como?

 

A realidade bateu à minha porta e agora era hora de voltar ao Brasil. Maio de 2016, país em crise, recessão, crise política, o completo caos. Mas voltei, de cabeça erguida, com milhões de projetos na minha mente. Apesar dos conselhos de alguns amigos da área, decidi não procurar por nada no mundo do petróleo, decidi que era minha hora de tentar algo, de fazer algo. Já havia estado tanto tempo fora do meu país, longe da minha família, já era hora de eu criar e dar vida a algum projeto e estar perto das pessoas que tanto amo. Seria bom para meu filho, para minha pequena filha que estava por chegar, para nossos pais, sogros, irmãos, enfim hora de retorna de onde eu havia saído há anos.

 

 

E cheguei, cheguei determinado, buscando oportunidades a serem exploradas. Decidi então, em sociedade com minha irmã ampliar um negócio que ela já tinha no ramo de design de interiores e imobiliário, uma proposta diferente. Ouvi de um amigo que crises são momentos de oportunidades, que alguns quando desempregados enveredam para o empreendedorismo e empregam alguns dos também sem empregos e assim a economia gira, e a vida segue. Aquilo me deu um alento, me deu coragem. E aqui estou eu hoje 8 meses depois, aprendendo como é difícil empreender em um país como o Brasil, ainda mais em um momento de instabilidade. O negócio ainda não evoluiu como eu gostaria, como havia planejado, mas as perspectivas são boas. Ser positivo, sonhar, calcular, aprender, agir, errar, repensar, reaprender, recalcular, pois é, são tarefas do dia a dia que muitas vezes são frustrantes mas que mostram quem somos de verdade. 

 

Voltar para o mercado de Petróleo? Eu não sou de fechar portas, prefiro deixa-las abertas. Também sei que a área não está em alta no momento, então viver da esperança que encontrarei algo no ramo também não é a melhor escolha. Também penso no 12 anos de experiência, 12 anos de vivência nesse mundo fascinante da exploração de petróleo. Seria sensato deixar tudo para trás e seguir outro caminho? Bom, no momento, melhor é se mexer, e nada como estar fora da tal zona de conforto para ter atitude, para seguir em frente. Nesse momento estou focado no meu novo negócio, como melhora-lo, como ampliá-lo, como me tornar um melhor empreendedor. 

 

Continuo toda manhã dando um beijo nos meus filhos, na minha esposa, algumas vezes ouvindo um "fica pai", mas agora é diferente. Aos poucos vou descobrindo um novo eu, novas perspectivas, novos sonhos. De alguma forma é bom estar de volta. Fácil não é! mas é bom!

 

Por Fábio Pestana

 

Artigo publicado no LinkedIn por Fabio Pestana

 

 

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